domingo, 12 de outubro de 2014

Ricardo Araújo Pereira- Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga



Como sempre irrepreensível, Ricardo Araújo Pereira usa o humor para descrever a caótica situação que se vive na educação, o nomadismo é ideal para a pastorícia e a transumância  uma tradição ancestral que se está a perder no nosso país, de acordo com a wikipédia devemos distinguir entre três tipos de transumância:

  • transumância estival ou ascendente, também chamada transumância normal, que é a subida para as pastagens montanhosas de rebanhos originários da planície. Na Europa esse período vai, em geral, do começo de junho a fins de setembro.
  • transumância invernal, ou transumância invertida ou descendente, que ocorre quando rebanhos de montanha fogem do rigor do inverno dos climas de altitude e descem às planícies temperadas.
  • transumância pernal, que ocorre quando os rebanhos não dão conta de fazer suas pernas (crias), então o rebanho foge para sua terra natal, em busca de vida.
Da pastorícia à ordenha e feitura do queijo sem esquecer a tosquia e venda de lã...











RICARDO ARAÚJO PEREIRA


"Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga

Eu tinha 14 anos e considerava que se estava a perder demasiado tempo com a influência da continentalidade nas amplitudes térmicas. Portanto, fiz o que tinha a fazer. Fui à horta que havia por trás dos campos de futebol e apanhei um gafanhoto. Antes de o professor de geografia chegar, coloquei o gafanhoto debaixo da sua secretária. Não resultou. Assim que o professor se sentou, o gafanhoto saltou para a janela e saiu da sala. O professor nem chegou a vê-lo. E passou mais 50 minutos a falar impunemente sobre o facto de as zonas costeiras serem mais amenas que as áreas do interior.

Aos 14 anos ninguém sabe imaginar estratagemas que transtornem verdadeiramente a vida dos professores. Aos 62, Nuno Crato, o ministro da Educação, tem a maturidade que me faltava para inventar as melhores partidas. 
  • Primeiro, colocou professores de Coimbra, por exemplo, em Faro. Esperou que alugassem casa, que instalassem a família. que adaptassem a vida à nova realidade. 
  • Depois, anunciou que tinha havido um engano e que a colocação havia sido anulada. Isto é que é uma partida.
  • Não sei se o ministro aceita sugestões, mas talvez fosse engraçado que, quando o professor se dirigisse ao ministério para se informar sobre as suas alternativas, lhe entregassem um envelope com um gafanhoto lá dentro. 

Como sempre, os professores não têm sentido de humor suficiente para entrar na brincadeira. Levam a mal, protestam, queixam-se. Resistem a ver esta baIbúrdia como uma oportunidade.

Eu, sendo professor, aproveitava o estilo de vida que o ministério proporciona e adquiria imediatamente 20 ovelhas. O nomadismo é ideal para a pastorícia, e as constantes mudanças na colocação contribuiriam para que eu ficasse com um rebanho forte e lucrativo. Quanto menos aulas desse, mais tempo teria para vender lã, queijo e borregos.

Há quem ofereça o corpo à ciência. Neste momento, os professoras podem oferecer o corpo à educação, na medida em que as suas vidas parecem um daqueles problemas matemáticos: 

«o professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os­-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a intemet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?». 

Nem todos temos a honra de poder dar um contributo tão grande para o bem da Humanidade. Os professores têm e ainda reclamam."

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